Compromisso pessoal

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“Se você for tentar, tente de verdade. Caso contrário nem comece. Isso pode significar perder tudo. E talvez até sua cabeça. Isso pode significar não comer nada por três ou quatro dias. Isso pode significar congelar-se num banco de praça. Isso pode significar escárnio, isolamento. Isolamento é uma dádiva. Todo o resto é teste da sua resistência. De quanto você realmente quer fazer isso. E você vai fazer isso, enfrentando rejeições das piores espécies. E isso será melhor do que qualquer coisa que você já imaginou. Se você for tentar, tente de verdade. Não há outro sentimento melhor que isso. Você estará sozinho com os deuses. E as noites vão arder em chamas. Você levará sua vida direto para a risada perfeita. Esta é a única briga boa que existe (…)”

Charles Bukowski

Movimentos…

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“Eu não gosto muito de vento, mas quando ele bate em seus cabelos, eu sou capaz de me fascinar pelas ondas frescas que ele causa. Eu não gosto muito de sol, mas quando ele se reflete em você, eu sou capaz de ficar embaixo do escaldante até morrer de insolação. Eu não gosto muito de chuva, mas quando ela cai e você chega sob encharque pedindo abrigo e um chá quente, eu sou capaz de implorar a Zeus que mantenha todo o século molhado. Eu gosto do inverno, porém nele você some. Você é de estações destemperadas. Aí eu fico apartado do mundo, olhando o úmido portão pela janela condensada pedindo que a natureza acelere o tempo das coisas e me traga rápido o que eu não gosto (…)”.

(Adriana Araf)

Quase tudo

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Em Goiânia, uma pequena feira de livros deixava aos interessados um acervo interessante a preço baixo pela quantidade de títulos e assuntos.

Vi, li, pesquisei e decidi pelo Quase Tudo, de Danuza Leão. Essa personalidade me chama muita atenção. Já li muita coisa dela e agora, com Quase Tudo, pude ler sobre ela. Sim, suas memórias. Prodigiosa, direta e um texto pra lá de envolvente. Li em dois dias.

Eis um trecho destacado de suas encantadoras reflexões:

O sofrimento nos modifica (…). Você sabe exatamente do que gosta, o que quer, não perde tempo com bobagens. É a hora de poder se dar a certos luxos, o que no meu caso significa valorizar a simplicidade; aprendi a reconhecer os momentos felizes quando eles acontecem e não depois, como era no passado. Parece pouco, mas não é. Esse foi o lado em que mudei para melhor. A vida pode ser boa em qualquer idade, e ter conseguido superar as tristezas que ela me trouxe faz bem à minha alma. Não que elas tenham sido esquecidas, mas a maturidade me fez ver que elas fazem parte da vida e que a vida merece ser vivida como se morde uma manga madura, como dizia meu pai. Hoje me dou quase todos os direitos, até porque o tempo agora é mais curto, e não se deve desperdiçá-lo com nada de que não valha à pena. Meus amigos são em menor número, mas mais bem escolhidos; tenho muito mais prazer em ficar sozinha e não preciso mais fazer concessões. (…). Se não tenho medo de morrer sozinha? A gente nasce e morre só. Isso é elementar. 

(…)

É nessa fase que estou. Melhorei em algumas coisas, piorei em outras, mas basicamente sou a mesma; aceito melhor meus defeitos, que considero apenas características para ficar mais leve. Posso ser tirana e também dócil (quando quero), simpática ou insuportável. Gosto de uma vida de rotina, de saber precisamente o que vai acontecer no meu dia, ser dona de mim. Enfim. Mas sei que sou capaz, de repente, de jogar tudo para o alto e mudar tudo – meus gostos, minhas preferências, minha personalidade. E, quando tenho que tomar uma decisão repentina, sempre penso: “E, no fundo, por que não?”. E faço, claro. Às vezes fico na dúvida: não sei se não tenho personalidade ou se tenho muitas, tal minha capacidade de me virar do avesso (…). E descobri que sou uma pessoa solitária. Depois de tantos anos solteira, eu, que quando casada sou uma guerreira, adquiri hábitos difíceis de serem modificados. Foi nesse lado que piorei: só vou a lugares onde possa, a qualquer momento, chamar um táxi e voltar pra casa, e pretendo nunca mais discutir relação. Vivendo a dois, é preciso fazer concessões; não estou na fase de fazer nenhuma; e nunca consegui me livrar do meu maior defeito: a falta de paciência (…). Penso como o escritor Elie Wiesel, que um dia disse “Depois de tudo o que eu vivi, nada que me aconteça poderá me fazer muito feliz ou muito infeliz”. 

 

Kazuo Ishiguro: Como escrevi “Os Resíduos do Dia”, em 4 semanas

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“A jornada de trabalho da maior parte das pessoas é extensa. Mas se o negócio é escrever romances, todos concordam que após quatro ou mais horas escrevendo sem parar, a produtividade cai. Eu sempre comprei essa versão, mas à medida que o verão de 1987 se aproximava, acabei por me convencer de que uma abordagem drástica era necessária. Com o aval de Lorna, minha esposa.

Até então, desde que havia deixado de trabalhar regularmente nos últimos cinco anos, eu fora capaz de estabelecer um ritmo razoável de trabalho e produção. Minha primeira onda de sucesso de público, após meu segundo romance, trouxe consigo, no entanto, um punhado de distrações. Propostas tentadoras de evolução na carreira, convites para jantares, festas e viagens ao exterior, além de montanhas de cartas, não conseguiram senão acabar com a minha rotina “adequada” de trabalho. Eu tinha redigido o capítulo de abertura para um novo romance no verão passado, mas agora, quase um ano depois, não havia progredido em nada.

Então Lorna e eu concebemos um plano. Nas quatro semanas seguintes, sem dó nem piedade, eu cancelaria minha agenda e procederia ao que enigmaticamente chamamos de “o confronto”. Durante “o confronto”, eu não faria nada senão escrever, das nove da manhã até às dez e meia da noite, de segunda a sábado, com uma hora para o almoço e duas para o jantar. Eu não abriria, responder nem pensar, nenhuma correspondência e não chegaria nem perto do telefone. Não receberíamos ninguém em casa. E nesse período, e a despeito de sua agenda particularmente carregada, Lorna também assumiria a minha parte na cozinha e na limpeza da casa. Esperávamos, assim, que não somente eu produziria quantitativamente mais como atingiria um estado mental em que o meu mundo fictício seria mais real para mim do que o real de fato.

Eu tinha 32 anos, e tínhamos acabado de mudar para uma casa em Sydenham, sul de Londres, onde pela primeira vez na vida eu tinha um verdadeiro estúdio. (Meus dois primeiros romances tinham sido escritos à mesa do jantar.) Era na verdade uma espécie de conjugado a um lance de escadas, sem porta, mas eu estava emocionado por ter um espaço onde eu pudesse espalhar meus papéis ao redor do jeito que quisesse sem ter de arrumar tudo ao final de cada dia. Enchi a parede descascada com mapas e notas e comecei a escrever.

Foi assim, basicamente, que Os resíduos do dia foi escrito. Durante “o confronto”, eu escrevi sem censura, não me importando com o estilo ou se algo que eu escrevera à tarde contradissesse algo que eu definira na história pela manhã. A prioridade era simplesmente deixar as ideias brotarem e florescerem. Frases horríveis, diálogo dantesco, cenas que não davam em nada, eu as deixava por ali e continuava a escavar.

No terceiro dia, Lorna mencionou, durante a minha pausa noturna, que eu estava me comportando de modo estranho. No meu primeiro domingo de folga eu me aventurei ao ar livre, na rua principal de Sydenham, e não parava de dar risinhos — pelo menos foi o que Lorna me contou — pelo fato da rua ser uma ladeira, fazendo assim com que as pessoas que desciam tropeçassem em si mesmas, enquanto os que subiam se esfalfavam e cambaleavam com o esforço. Lorna se preocupou pelo fato de eu ainda ter mais três semanas nesse processo, mas eu assegurei a ela que eu estava muito bem e que a primeira semana tinha sido um sucesso.

Continuei assim por quatro semanas, e ao fim de tudo tinha mais ou menos concluído o romance: claro que ainda seria preciso muito mais tempo para acertar a escrita de modo apropriado, mas todos os avanços imaginativos vitais tinham se dado durante “o confronto”.

A bem da verdade, no momento em que assumi “o confronto” eu já tinha feito um bocado de “pesquisa”: livros de e sobre mordomos britânicos; sobre política e relações exteriores no entreguerras; muitos panfletos e ensaios da época, notadamente o de Harold Laski sobre “Os perigos de ser um cavalheiro”. Havia pilhado as prateleiras de livros usados da livraria do bairro (Kirkdale Livros, ainda uma próspera independente) em busca de guias sobre o interior da Inglaterra entre os anos 1930 e 1950. A decisão sobre quando começar de fato a escrever um romance — de começar a compor a história em si — sempre me pareceu o momento crucial. Quanto se deve saber antes de começar a escrever? Começar cedo demais é prejudicial, assim como começar demasiado tarde. Creio que no caso de Resíduos eu tive sorte: “o confronto” veio no ponto preciso, quando eu sabia exatamente o bastante.

Em retrospecto, identifico todos os tipos de influências e fontes de inspiração. A seguir, dois dos menos óbvios:

1) Em meados dos anos 1970, ainda adolescente, assisti a um filme chamado A conversação, um suspense dirigido por Francis Ford Coppola. No filme, Gene Hackman é um especialista em vigilância autônomo, o cara a quem apelam os que querem grampear e gravar em segredo as conversas de outros. Hackman deseja obsessivamente ser o melhor em seu campo — “o maior grampeador da América” —, mas fica cada vez mais incomodado ao perceber que as gravações que ele fornece a seus poderosos clientes podem gerar graves consequências, até mesmo assassinato. Creio que o personagem de Hackman foi um modelo inicial para Stevens, o mordomo.

2) Certa noite, quando eu já dava o Resíduos por terminado, ouvi Tom Waits cantando “Ruby’s arms”. É uma balada sobre um soldado que não acorda sua amada ao sair para embarcar no trem de madrugada. Até aí, nada de estranho. Mas a música é interpretada na voz roufenha do típico deslocado americano totalmente incapaz de reconhecer suas emoções. A certa altura, quando o cantor declara que seu coração está partido, isso é quase insuportavelmente emocionante, por conta da tensão entre o sentimento em si e da enorme resistência em, obviamente, conseguir ser capaz de expressar isso em palavras. Waits canta o trecho com magnificência catártica, e é possível sentir toda uma vida de estoicismo durão desmoronando frente a uma tristeza esmagadora. Ao ouvir isso, eu reverti uma decisão que tinha tomado, a de que Stevens permaneceria emocionalmente travado até o fim amargo. E eu decidi que em apenas um ponto — e um que eu teria que escolher com muito cuidado — sua rígida barreira iria rachar, e um até então trágico e oculto romantismo seria vislumbrado.”

Fonte: Site Companhia das Letras e http://www.diariodocentrodomundo.com.br/como-escrevi-os-residuos-do-dia-em-4-semanas-por-kazuo-ishiguro/

Uma reflexão do Nobel

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“Tudo o que eu sei é que desperdicei todos estes anos procurando por alguma coisa, uma espécie de troféu que eu só conseguiria se realmente fizesse o suficiente para merecer. Mas eu já não quero isso, eu quero outra coisa agora, algo que seja morno e aconchegante, algo a que eu possa recorrer independentemente do que eu fizer, independentemente de quem me tornar. Algo que vá estar lá, sempre, como o céu de amanhã. Isso é o que eu quero agora e acho que você também deveria querer.  Mas em breve será tarde demais. Estaremos demasiado acomodados para mudar. Se não aproveitarmos a nossa chance agora, poderá não existir outra para nenhum de nós.”

Kazuo Ishiguro


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