Este vazio…

adriana

Ensina-nos, Senhor, a rezar este vazio. O vazio transportado por um medo que não conhecíamos e que parece agora um inquilino da nossa alma. O vazio dos espaços em isolamento. O vazio da vida que se faz sentir como suspensa. O vazio das horas que quem está na solidão conta de maneira diferente. O vazio das incertezas que se acumulam, e das quais ainda não falamos. O vazio dos olhos daqueles que veem sofrer e os olhos dos muitos que sofrem sem que nós os vejamos. O vazio de tudo aquilo que, de um instante para o outro, é adiado. O vazio daquela mulher idosa que passa o dia inteiro com o rosto contra o vidro da janela. O vazio do refugiado que vê a sua esperança negada por um carimbo. O vazio do jovem diante de um futuro que escapa cada vez mais, como um pensamento distante. O vazio que nos chega como um aviso de despejo da vida autêntica. O vazio dos encontros e das conversas de que agora precisaríamos. O vazio que os amigos notam. O vazio dos risos. O vazio de todos os abraços não dados. O vazio da proximidade proibida. O vazio no qual não te vemos.

José Tolentino Calaça de Mendonça, poeta e cardeal

As pequenas palavras

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De todas as palavras escolhi água,

porque lágrima, chuva, porque mar

porque saliva, bátega, nascente

porque rio, porque sede, porque fonte.

De todas as palavras escolhi dar.

De todas as palavras escolhi flor

porque terra, papoila, cor, semente

porque rosa, recado, porque pele

porque pétala, pólen, porque vento.

De todas as palavras escolhi mel.

De todas as palavras escolhi voz

porque cantiga, riso, porque amor

porque partilha, boca, porque nós

porque segredo, água, mel e flor.

E porque poesia e porque adeus

de todas as palavras escolhi dor.

(Rosa Lobato Faria)

A Solidão Refrescante

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Normalmente vemos a solidão como um inimigo. Ela é inquieta, fértil e ardente pelo desejo de escapar e encontrar alguma coisa ou alguém.Quando conseguimos repousar no caminho do meio, começamos a ter um relacionamento não ameaçador com ela”Não há ponto de referência no caminho do meio.Quando não escolhemos uma direção, temos a sensação de estar em uma clínica de desintoxicação.Sentimos a angústia da abstinência, com toda a irritação que temos tentado evitar por meio de nosso padrão habitual.No entanto, anos e anos de virar para um lado ou para o outro, de escolher sim ou não, de dizer certo ou errado nunca mudaram, de fato, coisa alguma.Lutar por segurança nunca trouxe nada, além de alegria momentânea.Esse processo (doloroso de sair do aprisionamento para a liberdade) exige enorme coragem, pois queremos viver felizes para sempre.

NOSSO DIREITO INATO: O CAMINHO DO MEIO

Não apenas buscamos uma solução – achamos que a merecemos e sofremos por causa dela. Não desejamos sentar e experimentar o que estamos sentindo. Não queremos passar pela desintoxicação.

Mas é exatamente isso que o caminho do meio nos encoraja a fazer.

Existem seis atitudes para descrever esse tipo de solidão refrescante: desejar menos, contentar-se, evitar a atividade desnecessária, ter total disciplina, não vagar pelo mundo do desejo e não buscar segurança no mundo dos pensamentos discursivos.

DESEJAR MENOS

Desejar menos é a disposição para estar solitário sem buscar uma solução, quando tudo em nós anseia por algo que nos anime e mude nosso estado de espírito. Assim, o Caminho Do Guerreiro consiste em, diante da intensa solidão, conseguir sentar com essa inquietação enquanto que, no dia anterior, era impossível estar com ela durante um único segundo.

Esse é o caminho da coragem. Quanto menos nos dispersamos e enlouquecemos, mais saboreamos a satisfação da solidão refrescante.

CONTENTAMENTO

Contentar-se é o segundo tipo de solidão. Quando não temos nada, não temos nada a perder – a não ser nosso forte condicionamento para achar que temos muito a perder. Essa sensação tem suas raízes no medo – medo da solidão, da mudança, de tudo que não pode ser solucionado, da não existência.

Contentamento é sinônimo de solidão tranquila, de acomodar-se na solidão refrescante.

Desistir de acreditar que somos capazes de fugir de nossa solidão.

Podemos ser simplesmente solitários, sem alternativas, satisfeitos por estarmos exatamente ali, na qualidade e textura do que está acontecendo.

EVITAR ATIVIDADES DESNECESSÁRIAS

Uma maneira de nos mantermos ocupados para não termos de sentir nenhuma dor. Esse processo pode assumir a forma de fantasiar obsessivamente o amor verdadeiro, ou ainda de fugir sozinho para um deserto. Não poderíamos apenas nos aquietar e mostrar algum respeito e compaixão diante de nós mesmos?

COMPLETA DISCIPLINA

Outro componente da solidão refrescante é a disciplina total – simplesmente voltar com suavidade para o momento presente. Estamos dispostos a sentar quietospara perceber como as coisas realmente são – isso nos permite finalmente descobrir uma maneira de ser totalmente desconstruída.

NÃO VAGAR PELO MUNDO DO DESEJO

Vagar pelo mundo do desejo envolve procurar alternativas, buscar algo que nos conforte – comida, bebidas, pessoas.

Não vagar pelo mundo do desejo tem a ver com relacionar-se diretamente com as situações, do modo como são.

A solidão não é um problema.

NÃO BUSCAR SEGURANÇA NOS PENSAMENTOS DISCURSIVOS

Na solidão refrescante, não esperamos que nossa tagarelice interior nos traga segurança. Somos encorajados a apenas tocar essa tagarelice e a permitir que se vá e olhar honestamente e sem agressão para nossa própria mente – com humor e compaixão, para aquilo que somos.

Então, a solidão não representa mais ameaça e a melancolia deixa de ser punição.

A solidão refrescante não nos fornece soluções e não nos dá um apoio. Ela nos desafia a entrar em um mundo onde não existe ponto de referência, sem polarizá-lo e sem cristalizá-lo.

Você saberia aproveitar essa oportunidade de ouro, quando acordar pela manhã e, de repente, começar o sofrimento da alienação e solidão? Em vez de se atormentar ou sentir que algo terrivelmente errado está acontecendo, exatamente ali, no momento da tristeza e da saudade, poderia relaxar somente.

Resumo de Vilma Capuano; Trecho do livro “Quando tudo se desfaz” de Pëma Chödrön

Quando os pais envelhecem, deixa-os viver…

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…deixa-os envelhecer com o mesmo AMOR que eles te deixaram crescer.Deixa-os falar e contar repetidamente as histórias com a mesma paciência e interesse que eles escutaram as tuas, quando eras criança. Deixa-os vencer, como tantas vezes eles te deixaram ganhar. Deixa-os conviver com os seus amigos, conversar com os seus netos. Deixa-os viver entre os objetos que os acompanharam ao longo do tempo para não sentirem que lhes arrancas pedaços das suas vidas. Deixa-os enganarem-se, como, tantas vezes, tu te enganastes. DEIXA-OS VIVER e procura fazê-los felizes na última parte do caminho que lhes falta percorrer, do mesmo modo que eles te deram a mão quando iniciavas o teu.

(autoria desconhecida)

Pandemia: reflexão de Isabel Allende

Trancada em sua casa ao lado de seu marido e dois cães, a escritora chilena vive nos Estados Unidos há 30 anos. Consultada pelo principal medo que implica o vírus, o que é a morte , a escritora contou que desde que a sua filha Paula morreu, há 27 anos, perdeu o medo para sempre:

“Primeiro, porque a vi morrer em meus braços, e percebi que a morte é como o nascimento, é uma transição, um limiar, e perdi o medo no pessoal. Agora, se eu pegar o vírus, eu pertenço à população mais vulnerável, as pessoas mais velhas, tenho 77 anos e sei que se me contagio, eu vou morrer. Então a possibilidade da morte se apresenta muito clara para mim neste momento, eu a vejo com curiosidade e sem medo.
O que a pandemia me ensinou é soltar coisas, a perceber o pouco que eu preciso. Não preciso comprar, não preciso de mais roupas, não preciso ir a lugar nenhum, nem viajar. Eu acho que eu tenho demais. Eu vejo à minha volta e digo pra quê tudo isso? Para que eu preciso de mais de dois pratos?
Depois, perceber quem são os verdadeiros amigos e as pessoas com quem eu quero estar.
O que você acha que a pandemia nos ensina a todos? Ele está nos ensinando prioridades e nos mostra uma realidade. A realidade da desigualdade. De como algumas pessoas passam a pandemia em um iate no Caribe, e outras pessoas estão passando fome.
Também nos ensinou que somos uma única família. O que acontece com um ser humano em Wuhan, acontece com o planeta, acontece com todos nós. Não há essa ideia tribal de que estamos separados do grupo e que podemos defender o grupo enquanto o resto das pessoas se esfrega sem muralhas, sem paredes que possam separar as pessoas.
Criadores, artistas, cientistas, todos os jovens, muitas mulheres, estão se colocando numa nova normalidade. Eles não querem voltar ao que era normal. Eles estão pensando em que mundo nós queremos viver. Essa é a pergunta mais importante neste momento. Aquele sonho de um mundo diferente: pra lá temos que ir.
Eu percebi que, em algum momento, você vem ao mundo para perder tudo. Quanto mais você vive, mais você perde. Você vai perdendo seus pais primeiro, pessoas às vezes muito queridas ao seu redor, seus animais de estimação, lugares e suas próprias faculdades também.
Mas, não se pode viver com medo, porque te faz imaginar o que ainda não aconteceu e se sofre o dobro.
É preciso relaxar um pouco, tentar apreciar o que temos e viver no presente.”

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