Revivência

adrie

(…) “E assim é que o tempo encena outra vez os espetáculos mais curiosos e mais sinceros do coração humano. O passado surge novamente, entrelaçando todos os seus sonhos e aspirações, e sobre sua prata banhada ainda se vê, intacta, a oxidação da falsidade. Dessa forma, um homem pode chegar a uma compreensão muito mais profunda de si mesmo, a uma percepção que em sua juventude estava fora de seu alcance. Quando contemplamos nossa velha aldeia a partir de uma montanha distante, por mais que os detalhes daquela época tenham se apagado da memória, o significado de ter ali vivido se torna claro e nítido. Até mesmo o buraco que havia no chão da praça, outrora tão importante, agora cheio de água da chuva, reluzindo ao sol, assume uma beleza simples e óbvia.”

in Cavalo Selvagem, de Yukio Mishima.

 

Guia para viajar pelas florestas dos sentidos

adriana foto

O que é o caminho? anúncio de partida escrito em folhas que o pó desenhou.O que é a árvore? lagoa verde cujas ondas são o vento. O que é o vento? alma que não quer habitar o corpo. O que é a morte? carro que leva do útero da mulher ao útero da terra. O que é a lágrima? guerra perdida pelo corpo. O que é o desespero? descrição da vida na língua da morte. O que é o horizonte? espaço que se move sem parar. O que é a decepção? espinho que sangra nas lembranças. O que é a coincidência? fruto na árvore do vento caindo entre as mãos sem se saber. O que é o não sentido? doença que mais se propaga. O que é o medo? paralisia que avança. O que é a memória? casa habitada só por coisas ausentes. O que é a poesia? navios que navegam, sem portos. O que é a metáfora? asa aliviando no peito das palavras. O que é o fracasso? musgo boiando no lago da vida. O que é a surpresa? pássaro que escapou da gaiola da realidade. O que é a história? cego a tocar tambor. O que é a mocidade? chegada barulhenta. O que é a velhice? partida silenciosa. O que é a sorte? dado na mão do tempo. O que é a linha reta? soma de linhas tortas invisíveis. O que é o umbigo? meio caminho entre dois paraísos. O que é o tempo? veste que usamos sem poder tirar. O que é a melancolia? anoitecer no espaço do corpo. O que é o sentido? início do não sentido e seu fim.

(POEMAS, de ADONIS, Ali Ahmad Said)

Manto de Água

Olha só,
Parece que a vida passou
passou por nós,
deixando um manto de água
Na minha voz…

https://www.youtube.com/watch?v=_lXAGnWI5iE

 

 

O luto pela velha normalidade: como superar o fato de que nossos projetos desapareceram

adri praia

Quando brindamos a véspera de Ano Novo e pensamos em nossos desejos para 2020 havia muitos projetos a realizar. Este seria o ano em que prestaríamos concursos públicos. Em que celebraríamos o nosso casamento. Em que tentaríamos ser pais pela primeira vez ou de novo. Em que compraríamos um apartamento.

(…) No início da crise os conflitos eram outros, mas agora que a “nova normalidade” se aproxima, chegou a hora de enfrentar muitas realidades, que vão desde a incerteza em relação ao trabalho, especialmente depois dos milhões de Expedientes de Regulação Temporária de Empregos (ERTE) ou demissões, até mudanças na vida pessoal, como gravidezes não desejadas ou rupturas que tampouco esperávamos.

A pandemia não apenas nos obrigou a cancelar viagens, shows ou viagens com amigos. Isso é o de menos. Levou-nos a mudar alguns dos nossos planos de vida. E agora?

“Voltaremos a uma realidade diferente daquela que deixamos quando o confinamento começou”, insiste o psicólogo Miguel Ángel Rizaldos. Embora isso não signifique que tenhamos que nos deixar levar pela negatividade. “A tolerância à frustração, a capacidade de adaptação e a resiliência são características muito humanas, que podem facilitar a adaptação a essa nova realidade”. Claro, não é uma tarefa fácil.

Resiliência à incerteza

Gostamos de pensar que estamos no controle das coisas e é por isso que adoramos planejar. Mas a realidade é que todos esses planos nem sempre serão realizados. Pode ser que aceitar que tenhamos de nos readaptar não seja algo novo, mas que a situação mude repentinamente, e para tanta gente, é algo com o qual não estávamos acostumados.

“Estamos em uma situação imposta, à qual tivemos que nos adaptar da noite para o dia, e isso acarretou muitas circunstâncias repletas de estresse, incerteza, medo, incerteza, ansiedade…”, observa a também psicóloga Judith Viudes. Apesar disso, insiste que não se deve se deixar levar por pensamentos catastrofistas, mas é preciso assumir que é algo totalmente normal. “A vida não é um contínuo estático, vivemos em uma constante mudança”.

Por isso, assim como falamos que essa crise nos fez valorizar mais as pessoas que amamos ou os pequenos prazeres, outra lição a aprender é exatamente esta: devemos aprender a ser mais resilientes para enfrentar as mudanças imprevistas.

“Na pandemia experimentamos esse golpe de realidade, mas não sei se aprendemos que a vida é muito mais incerta do que o nosso cérebro gostaria. Não temos tanto controle sobre o nosso futuro quanto acreditamos, o percentual de incerteza é maior que o controle que pensamos ter”, insiste Miguel Ángel Rizaldos.

Aceitar não significa se resignar

A primeira coisa a ter em mente é que, embora enfrentar mudanças seja um processo da vida, é lógico e necessário sentir-se mal com a perda desses planos de vida. “É preciso aceitar que temos emoções negativas por causa dos projetos que não serão realizados. É normal, natural e até saudável que você sinta tristeza e/ou ansiedade com a perda.”

“É preciso aprender a trocar a resignação pela aceitação”, acrescenta nesse sentido Judith Viudes. Em outras palavras, resignar-se significa “ficarmos paralisados com uma série de pensamentos negativos repetidamente, o que faz com que de alguma forma fiquemos imóveis e passivos. Ficamos estagnados.” Em vez disso, a aceitação passa por “mudar nosso diálogo interno e entender que aceitar a situação é o começo da mudança.” Como resume Viudes, a chave é “parar de se preocupar para começar a se ocupar”.

Não dramatizar, mas adaptar

No final, embora existam projetos importantes que são difíceis de adiar, também é preciso avaliar que outros só precisam ser reinventados. “Alguns planos terão de ser descartados até um momento melhor, outros poderão se adaptar aos novos tempos e faremos novos planos que se ajustem melhor a esta nova realidade”, observa Rizaldos.

Para isso é importante saber como lidar com a frustração. Em tempos de incerteza, a impaciência não é a melhor das companheiras. Portanto, embora seja preciso aceitar essas emoções negativas, é necessário digerir isso “para continuar avançando com projetos diferentes ou modificados”.

Embora existam situações em que é impossível ver o lado bom, e não nos reste outra opção a não ser administrá-las dentro de nossas possibilidades, como o fechamento do nosso negócio, outras podem acabar sendo uma oportunidade. Por exemplo, o confinamento o nos levou a tomar a decisão de terminar um relacionamento, talvez no longo prazo tenha sido o melhor.

“Agora, mais do que nunca, trata-se de viver o momento e ver como essa nova realidade evolui para nos adaptarmos a ela. O ser humano é muito resistente e é capaz de seguir em frente nas situações mais adversas. O importante não é cair, mas voltar a se levantar”, conclui Rizaldos.

fonte: El País, Sílvia C. Carpallo

Vai passar…

Sonhar com ventania: o que isso significa? Veja aqui!

“Vai passar, tu sabes que vai passar. Talvez não amanhã, mas dentro de uma semana, um mês ou dois, quem sabe? O verão está aí, haverá sol quase todos os dias, e sempre resta essa coisa chamada ‘impulso vital’. Pois esse impulso às vezes cruel, porque não permite que nenhuma dor insista por muito tempo, te empurrará quem sabe para o sol, para o mar, para uma nova estrada qualquer e, de repente, no meio de uma frase ou de um movimento te surpreenderás pensando algo assim como “estou contente outra vez”.

Caio Fernando Abreu


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